domingo, 28 de outubro de 2007

A uma amiga que hoje partiu, M. C. S. F. C. (17/5/43 - 28/10/07)

Revejo-te no timbre inconfundível da tua voz, no perfil da tua magreza, no sorriso, avaro de quando em quando, sincero às vezes; recordo-te as manias, os tiques ("mestre da elegância" - lembras-te?), as pequenas implicâncias, a teimosia, as convicções, a meticulosidade nada concordante com a caligrafia corrida que punhas nos sumários dos livros de ponto, os traços apressados com que assinalavas a a rubrica fugitiva (?) nos testes e nas actas...
Acabo de reler coisas que rabisquei e te fui enviando em postais e cartões nos últimos anos - do mar de Lagos, dos socalcos do Douro, da "Lezione Spettacolo" de Dario Fo e Franca Rame, de Sintra, de casa, da nossa escola, de uma esplanada aqui na vizinhança, de Inverno, de Verão, de Outono, da Primavera... barcos, girassóis, rios, pontes, casas, árvores, uma torre, uma estrela dourada num fundo branco, um sol, um livro, um naperon, ... cartografias de vida!...
Como Ulisses, no regresso, descrevendo a Penélope e a si mesmo, as teias entretecidas nas sua longa viagem de volta a casa... e ela, de outras teias falando compostas e descompostas ao ritmo da espera, da esperançosa espera... fios, linhas, laços, nós, pontos, telas, tecidos que se desenham, afinal, colorindo a cartografia das nossas vidas, preenchendo de afectos os vazios que qualquer bordado deixa em branco... Assim tentei fazer hoje: vestir a roupagem da página cinzenta deste dia triste em que partiste.
São fundas as rugas indeléveis que deixaste nos mapas das nossas almas...

Semana da Leitura