sábado, 24 de janeiro de 2009

ARREPIOS DE ALMA - 4

Da coincidência dos nomes

Seguiam pela tarde mansa, a caminho do anoitecer. Apetecia-lhes regressar aos cálidos mergulhos de mar, incontáveis na última semana. Depois, ela iria seguir o caminho das estrelas e da lua, deitada na cama de caruma que improvisara no rochedo-ilha alcandorado sobre a pequena baía de cheiro a sal, a mel, a figo e a resina – um mundo só seu, antes de adormecer.
Tinha sido uma jornada de emoções muito fortes, quase insuportáveis algumas; em jeito de balanço, conversavam (uma vez mais) sobre o fanatismo, a intolerância, o absurdo, naquele dia a revelar-se (ainda) em tão cruéis evidências. No meio da povoação silenciosa, um estranho largo terraplanado, despido; parecia ter sido recentemente composto, soava a falso. Edifícios já recuperados, a adivinhar, pelos sinais de obras inacabadas. ( - À pressa, reconstrução atamancada! - disse ele)
Ela - Que terra é esta?
Ele – Nem reparámos na placa!... Vínhamos distraídos... melhor, ocupados com a conversa…
Atravessavam a ponte.
Ela, de súbito, erguendo a voz, como que a afagar tristezas: - “Vejam bem, que não há só gaivotas em terra, quando um homem se põe a pensar. Quem lá vem, dorme à noite ao relento na areia, dorme à noite ao relento no mar… E se houver uma praça de gente madura… “. Aquela música assaltava-a sempre em momentos inexplicavelmente misteriosos, desde que a aprendera há 34 anos. Seguida invariavelmente de outra, sempre essa mesma:
Ela – Muxima ue ue, Muxima ue ue, Muxima Muxima ue ue, Muxima ue ue, Muxima. Se uamgambé uamga uami Gaungui beke muá Santana Muxima ue ue, Mue ue, Muxima ...
Um rudimentar anúncio publicitário e uma placa toponímica na próxima rotunda trouxeram-lhes a resposta.
Ela, gritando – Olha! Gabela! Estamos na Gabela!?!
Ele – Em Gabela? Eu já ouvi esse nome!
Ela – Em Gabela, não, na Gabela. Incrível, é a segunda Gabela que eu conheço. Duas terras tão distantes com o mesmo nome, uma em África, esta aqui nos confins da Europa - como é possível?!
Ele – Tira uma fotografia, depressa, agora, tira!...
A velocidade da rodagem, ainda que branda, a surpresa, o nervosismo, não permitiram fotografia que se veja.

[ É preciso escrever sobre a Gabela, é preciso escrever sobre a Gabela, é preciso]

A cidade da Gabela, à beira do rio Nhia, em Angola, está situada no município do Amboim, Província do Kuanza Sul, a nordeste da capital da província, Sumbe, no litoral. Atravessada pelo âmago pelo rio Mazungue, a Gabela está perfeitamente definida pelos rios Cuvo e Nhia havendo outros pequenos ribeiros seus afluentes. No município do Amboim há regiões de savana e florestas densas e húmidas, estas situadas na zona de escarpas. A sede N´Guebela, que na tradução portuguesa se diz Gabela (a palavra significa “braçada”), constitui uma das regiões agrícolas mais ricas de Angola. Assim, o Amboim é sobejamente conhecido devido à excelência do seu café, um dos melhores do mundo, sendo explorados outros recursos naturais, como o mel e a madeira. A 7 Kms da Gabela, encontrava-se a C.A.D.A., Companhia Angolana de Agricultura, que viria a tornar-se uma vila quase fantasma, grande produtora de café, cuja sede era uma pequena vila chamada Boa Entrada, nos tempos coloniais, a menina dos olhos do Amboim-Gabela. O caminho de ferro do Amboim (C.F.A.) fazia o transporte do café de outras mercadorias e passageiros.
Inserindo-se num eixo viário estruturante, a estrada da Quibala, a Gabela foi local de devastação e morte numa das batalhas mais pesadas da guerra angolana pós-independência, quem se lembra?

Com uma história longa, também a Gabela da B. i H. é uma pequena cidade que viveu tempos conturbados. Pertencendo ao concelho de Capljina, dista 4 Km de Metkovic e 6 do delta do rio Neretva, na fronteira com a Croácia. Passa pela Gabela quem faz a estrada (quase sempre paralela ao rio) ou o caminho de ferro que leva a Mostar, a pequena Istambul do Ocidente, e a Sarajevo. A rota de peregrinação ao santuário mariano de Medjugorje, nas montanhas vizinhas, assume particular relevo no turismo da região; cá em baixo, na estrada Gabela/Capljina/Medjugorjie, barricaram-se os monges franciscanos que tudo fizeram para preservar a presença e o controlo da diocese católica, no duro ano de 1993. Sob comando de milícias católicas, HVO, e apesar da presença da missão do Croatian Helsinki Watch, no centro da Gabela, num forte do tempo da romanização, agora arrasado, existiu um campo de concentração em tudo semelhante a Dachau ou Auschwitz; aliás, na região existiram vários durante a guerra de 91-95 – calcula-se que mais de 20.000 “Bosniaks” (muçulmanos bósnios), especialmente mulheres e crianças, ali tenham sido vítimas de marchas forçadas, tortura, fome, humilhação, extermínio em massa e limpeza étnica. De nada valeram as denúncias e os apelos da Cruz Vermelha e de alguns órgãos da imprensa internacional.
Que dizer da paisagem circundante desta Gabela? Terras férteis no vale que ora se estreita ora se alarga; algumas grandes quintas no extenso planalto que nos surpreende, após a subida da cadeia montanhosa, quando buscamos Medjugorje, aventureira experiência, de tirar a respiração; um mundo esquecido, de tranquilidade, verde, mesmo no pino do Verão; frescas águas cristalinas, nos rios e nas fontes; pomares e vinhedos a perder de vista, já recuperados; e muitas plantações de vegetais – as condições climáticas únicas propiciam duas e três colheitas anuais…

[ É preciso escrever sobre a Gabela, é preciso escrever sobre a Gabela, é preciso]

Ela: - “Vejam bem, que não há só gaivotas em terra, quando um homem se põe a pensar. Quem lá vem, dorme à noite ao relento na areia, dorme à noite ao relento no mar… E se houver uma praça de gente madura… “
(pausa) “Muxima ue ue, Muxima ue ue, Muxima Muxima ue ue, Muxima ue ue, Muxima. Se uamgambé uamga uami Gaungui beke muá Santana Muxima ue ue, Muxima ue ue, Muxima” ...
Ele: – Já não cantavas essas músicas desde aquela tarde de Agosto!...
Ela, absorta: - Pois não… 10 de Agosto, mais precisamente..
Ele – Ah?! Será?...
Ela – Como poderia esquecer a data? Olha, estive agora a cumprir uma promessa, acabei de rascunhar uma coisita sobre a Gabela… quer dizer, sobre as Gabelas… descobri a razão de ser daquele estranho largo descampado no centro da Gabela B. i H…. Adivinhas? Guarda mistérios de que ninguém quer falar…

Sentada à secretária, inquieta, ela persiste ainda na cantoria melancólica; imagina-se de novo no Male Ciste, à borda do Adriático, no mágico rochedo-ilha que foi só seu durante dez dias, a adiar o prosseguimento da viagem ( - Amanhã partimos?). Tenta, assim, repudiar a penumbra dos dias chuvosos e frios e sacudir memórias embaciadas, destroços silenciosos deixados por marés tumultuosas que a História teima em repetir.


M. A. P. S. – Dez. 2008/Jan. 2009

Semana da Leitura