segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

ARREPIOS DE ALMA - 5

Pelas 8 horas já ele nadava sozinho no mar-quase-lago. Meio golfinho, meio torpedo, 30 minutos foi o tempo que o homem ocupou a singrar aquelas águas aniladas pela luz da manhã de Agosto - concentradamente, em largas voltas metódicas.
Depois, o homem saiu para o espaço, meio cambaleante, pisando o chão de pedrinhas e conchas, dirigiu-se ao chuveiro, ali mesmo na berma do mar; inclinando a cabeça para a esquerda, tirou os óculos de mergulho azuis e a touca de silicone verde que lhe cobria o cabelo já ralo e grisalho; sacudiu-se e, num esforço desajeitado, vestiu o roupão acastanhado. A seguir, o homem sentou-se na cadeira de campismo, à sombra de um cedro arredondado carregado de sementes. Já então resfolegava de satisfação e murmurava repetidamente:
- Sehr gut! Das ist gut! Super!
Depois, o homem pôs-se a olhar em frente, a fitar os barcos, as árvores e o palácio do marechal Tito no recorte longínquo das ilhas de Brijuni. Quieto e calado, assim esteve o homem - a afagar farrapos de lembranças, a resgatar sombras do passado, quem sabe?... Até que se levantou e se preparou para repetir o ritual e mergulhar de novo; duas horas haveriam decorrido.
O homem não tinha um braço.


(M. A. P. S.)

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