Para Gonçalo M. Tavares, a viagem do século XXI é uma consequência da linha recta. A natureza não tem linhas rectas. Quando surgem linhas rectas é porque esteve lá um ser humano. A estrada, a autoestrada: linhas rectas impostas à barbárie, a ordem humana sobrepondo-se ao caos da natureza. Depois, porque o solo é um território difícil para as linhas rectas (está cheio de obstáculos: montanhas, pessoas, etc.), conquistámos os céus com as linhas aéreas. «Hoje vivemos fascinados com o ponto de partida e o ponto de chegada. Classicamente, a viagem era o percurso. Agora é o destino. O percurso deixou de ser importante. A história da viagem é a história da eliminação do percurso. E o avião é a satisfação máxima desse nosso desejo: a abolição do percurso.» E Tavares falou ainda da viagem enquanto itinerário mental, enquanto mudança do lugar da nossa atenção: «O que importa é onde está a nossa atenção, não é onde estão os nossos pés.» Para concluir: «O grande perigo da viagem é mudar-nos tanto que quando regressamos já não reconhecemos aqueles que deixámos.»
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quinta-feira, 21 de abril de 2011
domingo, 21 de fevereiro de 2010
A aprendizagem das coisas do mundo: as travessias que se impõem; crescer implica a perda da ingenuidade e a dor.
"Depois, na alegria num jardim, deixavam-no engatinhar no chão, meio àquele fresco das folhas, ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas – cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha."
“Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...”.
“Miguilim, Miguilim, eu vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!...” "SEmpre alegre, sempre alegre, Miguilim!"
Guimarães Rosa, "Campo Geral/ Miguilim"
(ontem no Teatro Aveirense , a magia de outras "viagens")
domingo, 12 de julho de 2009
O LIVRO
"São breves, e invisíveis, como os ritmos da terra.
Pelos livros, sei o que não vêem os olhos; o que
não colhem as mãos, quando, de sombra, a boca se ilumina.
Com seu poder diurno, um livro demora a ser.
Por isso, celebra o espaço: por cada instante,
sustém, na pedra, a fuga clara.
Uma vez aberto, um livro jamais poderá fechar-se;
abre-se onde, de resto, o fim começa.
Inaugural, ergue da terra novo fulgor divino.
Umas vezes, perpassa, como um tráfego secreto;
outras, esquece: ao primitivo ardor dos caracteres regressa como um deus.
Leio o que escrevo e sei, agora, o azul helénico do
mar. O livro é ainda a procurada luz dos barcos. A
água assina cruelmente essa suspeita."
Vergílio Alberto Vieira, "Papéis de Fumar", Editorial Campo das Letras, 2006
domingo, 3 de junho de 2007
As árvores e os livros
"As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras."
Jorge Sousa Braga, Herbário (2002)
In “Dias com Árvores”
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