Para Gonçalo M. Tavares, a viagem do século XXI é uma consequência da linha recta. A natureza não tem linhas rectas. Quando surgem linhas rectas é porque esteve lá um ser humano. A estrada, a autoestrada: linhas rectas impostas à barbárie, a ordem humana sobrepondo-se ao caos da natureza. Depois, porque o solo é um território difícil para as linhas rectas (está cheio de obstáculos: montanhas, pessoas, etc.), conquistámos os céus com as linhas aéreas. «Hoje vivemos fascinados com o ponto de partida e o ponto de chegada. Classicamente, a viagem era o percurso. Agora é o destino. O percurso deixou de ser importante. A história da viagem é a história da eliminação do percurso. E o avião é a satisfação máxima desse nosso desejo: a abolição do percurso.» E Tavares falou ainda da viagem enquanto itinerário mental, enquanto mudança do lugar da nossa atenção: «O que importa é onde está a nossa atenção, não é onde estão os nossos pés.» Para concluir: «O grande perigo da viagem é mudar-nos tanto que quando regressamos já não reconhecemos aqueles que deixámos.»
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