"O que a memória amou fica eterno". (Adélia Prado)
Correm (semi)esquecidas, quase obscuras, as memórias - serpenteando como leitos sinuosos de um rio e seus afluentes. Surpreendendo-nos quando menos esperamos, porque, acreditem, as correntes também sobem da foz para a nascente. Assim se encontra o que se julgou um dia perdido e apagado para sempre.
Há dias, fazendo um zapping sonolento, antes de adormecer, parei distraidamente na RTP África. Deixei-me ficar a ouvir de olhos fechados, absorta e preguiçosa. Uma das duas vozes femininas soou-me familiar – vagamente, muito vagamente. Pus-me à escuta, com mais atenção, familiar, sim, conhecida , cada vez mais distinta, muito próxima… Olhei o écran… - Não, não conheço… uma senhora bonita e elegante, 70 anos, talvez, mestiça crioula… - Tão estranhamente familiar… Não, não sei quem é…
Mas a voz continuava a deliciar-me o ouvido, numa sinfonia de encantamento, melodiosa, enfeitiçadora, irresistível. Pausadamente, falava entusiasmada e segura sobre a situação da mulher em Cabo Verde, a educação … Espera, se calhar, quem sabe… A entrevista terminava, a jornalista agradecia a presença da sua convidada… Dei um salto… Decifrou-se o mistério – Dra Maria Antónia de Miranda Alfama, inconfundível caboverdiana, bonita e elegante, minha professora de História e de Português há 40 anos atrás, sensivelmente; na distante cidade de Silva Porto, distrito do Bié, província de Angola, no Liceu Nacional Dr Silva Cunha.
Sorri e deitei-me, feliz. Toda a noite sonhei ao som daquela voz. Ouvi merengues, Tetalando, Rui Mingas, mornas e coladeras, Tito Paris, Cesária Évora… Andei lado a lado com a padeira de Aljubarrota, dei o grito do Ipiranga, ajudei Diogo Cão a levantar o padrão na foz do Rio Zaire, prestei vassalagem a Nzinga Mbandi Ngola, a rainha Ginga, fui mais uma vez à Embala de Belmonte, não muito longe de casa, ver a bandeira do Sertanejo. Declamámos o “Mostrengo”, de Fernando Pessoa, o "Batem leve, levemente", de Augusto Gil, e declinámos os verbos regulares e irregulares… Talvez tenha lido os textos da antologia… Revi a escola e o recreio. Não sei se reconfigurei a turma toda – - Que estranho!... Qual seria o meu nº na pauta?
Eu não disse? Nos leitos dos rios há palavras e vozes ocultas em recantos de silêncios que nos surpreendem. Inesperadamente.
(M. A. P. S. - Fev./2009)