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domingo, 4 de dezembro de 2011

O Trabalho de Verificar

Todos Nós Hoje Nos Desabituamos do Trabalho de Verificar Todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—«Este é uma besta! Aquele é um maroto!» Para proclamar—«É um génio!» ou «É um santo!» of erecemos uma resistência mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.

Eça de Queirós, in 'A Correspondência de Fradique Mendes'


IN http://www.citador.pt/

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Conselho

Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.


Alexandre O'Neill - "Poesias Completas",
Assírio&Alvim, 5.ª edição, Maio de 2007, p. 368

sábado, 1 de outubro de 2011

Em tempos de vacas magras

Dá-me conta rez e rez,
pois pedes todo teu frete.
Das vacas morrerão sete
e dos bois morrerão três.
Que contas de negregura!
Que tal andam os meus porcos?
Dos porcos os mais são mortos
de magreira e má ventura.

Gil Vicente, "Auto de Mofina Mendes"

Semana da Leitura