"rubem focs perguntou hoje a manuel jorge marmelo se ainda há movimento de gaivotas pela terceira margem do douro, gaivotas em procissão alada, uma a uma, em fila, ora uma, ora outra, como se em expedição de busca secreta pelo dorso do rio, estranha e esquisita coreografia ditada por um coreógrafo sem nome, essas aparições que ali pela foz do douro costumam atrair o olhar de um estrangeiro-estrangeiro, e focs se diz um estrangeiro-estrangeiro, em lugar algum ele reside, sua residência é móvel, seu coração é nômade, peregrino saído de belo horizonte para o mundo, sem documentos de entrada, sem documentos de saída, por isso os sapatos náuticos, por isso a língua arrevezada e sem origem, razão, portanto, de tal pergunta sobre as gaivotas, mas também sobre o vinho que agora, no porto, pode estar sobre uma mesa do restaurante abadia, perguntas de um amigo para um amigo, faz tanto tempo, o tempo, esse cruel navio, esse bárbaro foguete, míssil no horizonte, e as gaivotas, focs jamais pôde se esquecer daquela procissão de gaivotas pela terceira margem do douro, nunca ele soube sobre por que voejavam ou o que alardeavam em algaravias pelo leito do rio, ali mesmo, com a gaia adiante, com um céu azul cegante, faz tanto tempo, mas é uma imagem tão límpida que ainda é escutável aquele bater de asas do lado de cá do atlântico."
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