quarta-feira, 8 de julho de 2009

UM CONTO COM ALGUMAS VAZANTES

O conto sofria de algumas perturbações de margens, de bordas, de fronteiras e de perspectiva desejante. Por exemplo: não queria de todo ser um conto, mas igualmente não ansiava de todo ser um poema e muito menos ser um ensaio. Começava com um homem que, ao sair pela manhã rumo ao escritório, fingia que ele próprio o seguia. E de fato o seguidor seguia o que era seguido (ambos a mesma pessoa) ao longo de dois quarteirões no centro da cidade, e ao longo de mais dois, à esquerda, por uma rua muito íngreme, cinza, muda, sem árvores. Todos os dias, nas primeiras horas da manhã, o homem seguia a própria pessoa (que era ele) pelo mesmo trajeto. Ao que se sabe, jamais o homem que era seguidor alcançava o homem que era seguido. Nem no caminho de ida, nem no caminho de volta, nem mesmo naquelas caminhadas a esmo, em tardes de folga, de vagar sem destino. O conto ficava nisso, monotonamente, por algumas páginas de puro ócio. Pelas quatro linhas finais, no entanto, de maneira um tanto abrupta, surgiam pistas de que outros homens, na mesma cidade e pelos mesmos trajetos, igualmente fingiam que seguiam os próprios passos. E ao observarmos o conto por um plano, digamos, geral, percebíamos, aí, sim, as graves perturbações pelas quais ele passava diante dos olhos de quem o lesse, isto é, coisas vazantes para um dos lados, coisas vazantes para outro lado.



Paulinho Assunção, escritor e jornalista (blogspot.com)

Semana da Leitura