Do delta, subirás ao longo do vale verdejante, em contra-corrente. Balançando entre a curiosidade e a inquietação. Lentamente, absorvendo o ar fresco da manhã. Veias para cá, para lá; artérias para lá, para cá; até ao lugar do coração.
Postos, enfim, os pés na poeira da terra seca, sob o calor escaldante do sol e do medo, caminharás por ruelas empedradas com brancos calhaus rolados. Elas te conduzirão ao centro, até ao lugar do coração - da alma. Ei-la, a Stari Most, "lua petrificada". Assombro e fascinação. Ansiando pela sombra, molharás, então, os pés escaldantes na água límpida e fria do Neretva. Sagração. Ritual impulsivo de purificação a que não resistirás, absoluta e vital necessidade de respirar fundo, de (re)ganhar forças e coragem para erguer os olhos, encarar a realidade, os sinais dela, para além dela.
Retomarás a caminhada. Raiva. "Don´t forget 1993". Espectros de outros tempos, tão incrivelmente cruéis e sanguinários. V-E-R-T-I-G-E-M. Trevas. Melancolia e apaziguamento. Esperanças de novas eras. Luz. Claridade.
Ouvirás os sussurros. As vozes. Os "muezzin" e o toque dos sinos. Os Homens e as religiões. Verás. As casas. Os templos. As ruas. As vielas. Os cemitérios. As montanhas. A vida e a morte. A ruína e a reconstrução. A guerra e a paz. O rio. A ponte, outra vez e outra vez a ponte, o lugar do coração. Para cá, para lá. Palavras caladas. Olhares furtivos. Rostos introvertidos. Passos fugazes e silenciosos. Tímidos sorrisos, tão tímidos.
(Mostar, Mostar! Na ponte que te guarda o coração, ficou um pedaço de mim...
Em 10 de Agosto de 2008.)
M.A.P.S.